VALORES

Por meio de historias , cronicas e atualidades ...refletir os valores, tão esquecidos hoje em dia... além de tambem compartilhar minhas leituras, imagens, fotografias, e atividades relativas ao terceiro setor.

VALORES

Por meio de historias , cronicas e atualidades ...refletir os valores, tão esquecidos hoje em dia... além de tambem compartilhar minhas leituras, imagens, fotografias, e atividades relativas ao terceiro setor.
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Terra Blog

Arquivo de: Março 2008, 03

03.03.08

UM MUNDO AGONIZANTE(2)

 

(Continuação)

Enfim, mata-se, mata-se e mata-se. E o mais duro é que, se perguntarmos qual a verdadeira razão de tantas mortes, a resposta vem nua e crua: mata-se para manter vivo um estilo de vida nefasto e em vias de extinção. As matanças em massa que assistimos exprimem a fúria de um mundo agonizante. Essa monstruosidade social definha e, nos últimos estertores, devora corpos e esperanças, em uma espécie de canibalismo genocida que parece saído das histórias de ficção científica.
O que chamamos de "sociedade de consumo", como mostra Campbell, nasceu da aliança entre a revolução industrial e a revolução moral protestante. O hábito de adquirir objetos para fins de ostentação social não é, por si, incompatível com o apreço por deveres morais. Pelo contrário, o consumismo, nas origens, esteve associado a ideais de liberdade individual, de valorização da intimidade, de reencantamento do convívio familiar pelo aconchego material dos lares etc.
A amoralidade ou imoralidade do consumismo atual não se deve ao hábito de comprar bens com obsolescência programada. Deve-se à desvinculação desse hábito de qualquer pretensão ao aperfeiçoamento ético.
Isso começou a ocorrer quando os corpos e os sentimentos passaram a ser as novas “mercadorias" de manipulação comercial e publicitária. A partir daí, o próprio estofo da moralidade, a realidade físico-emocional humana teve seu valor ético degradado, e a compra de objetos supérfluos se transformou em uma compulsão cega, alheia a seu objetivo inicial, a felicidade emocional privada.
Desde então, falamos de um "consumo" de bens materiais ou símbolos de status, sem perceber que o que está sendo verdadeiramente "consumido" é a vitalidade de nossos corpos e mentes, diariamente vendida e comprada, usada e abusada para azeitar a máquina ensandecida do lucro.
Observadas de perto, as promessas da "sociedade de consumo" são espantosas.
Tudo cabe numa lista tacanha, onde, de um lado, estão os meios de evasão –a cocaína, o ecstasy ou o mais novo psicotrópico contra o mais novo sofrimento existencial- e, de outro, a realidade social da qual todos querem se evadir –o tédio; a aridez da inveja e da competição; o medo do desemprego; o tormento das decepções românticas; a obsessão pela magreza e pela boa-forma; a anorexia; a bulimia; as mutilações corporais; as pancadarias adolescentes dos fins de semana; a depressão; a insônia crônica; o estigma da obesidade; o receio da solidão; o exame fóbico das taxas de colesterol, enfim, o pavor do câncer, do infarto, da doença de Alzheimer, da "feiúra" da velhice etc.
O braço armado da "sociedade de consumo", com ou sem dragonas, mata e morre por isso. Ninguém está bombardeando o Iraque para defender a paz de espírito e o conforto emocional dos americanos, assim como nenhuma gangue carioca ou paulista mata pelo direito de amar, de ser solidário ou de viver em harmonia e dignidade junto aos seus.
Nos sujos subúrbios cariocas e paulistas ou no ronrom feltrado dos bairros chiques do dito "Primeiro Mundo", a aspiração cultural é a mesma: explorar o corpo e a alma, até o embotamento ou a exaustão, para que a insensatez da vida que se leva não pareça tão real quanto é.
Philip Rieff, há quase 40 anos, pensava que o declínio da cultura trágica iria, finalmente, permitir o surgimento de uma moral das satisfações humanas, diversa do "controle consolatório" oferecido pelas morais tradicionais. Errou na previsão. A moral do "bem-estar consumista" nem nos trouxe alento nem consolação. Antes, vivíamos para a felicidade que, raramente, chegávamos a ter; hoje, matamos para continuar tendo a infelicidade que já temos.
A sociedade ocidental -o Brasil, em particular- necessita, urgentemente, de um "fome zero cultural". Mudar não basta. É preciso não agir como bestas a caminho do abatedouro. É preciso entender que o "consumismo" do qual tanto falamos não mais existe, e o que existe está com os dias contados. Os "Iraques", os "Rios" e os "11 de setembro" são o grasnar desse abutre moribundo.
E, se os mais justos e decentes não tratarem de enterrá-lo logo, mais sangue e mais cadáveres vão estar presentes no cortejo de seu inevitável funeral.


Jurandir Freire Costa é psicanalista e professor de medicina social na
Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É autor de, entre outros, "Sem Fraude
nem Favor" e "Razões Públicas, Emoções Privadas" (ed. Rocco). Escreve
esporadicamente na seção "Brasil 503 d.C.".

UM MUNDO AGONIZANTE (1)

A solicitação de um amigo,,,, segundo ele, este documento é muito atual, e não se desperdiça nada, foi escrito em 2002, e deverá ser lido com muita atenção ...Jurandir, é carioca, cristão, e este amigo o nome dele é Jorge Osvaldo Alvez (cacho) e sempre falamos da "furia de um mundo agonizante."

JURANDIR FREIRE COSTA

No Iraque, dois países opulentos esmagam uma multidão maltrapilha; no Brasil, em especial no Rio, cidadãos pacatos, indigentes armados, policiais e, agora, até juízes são mortos como insetos. O que explica tudo isso?
À primeira vista, a resposta pode parecer óbvia. Por trás da guerra a Saddam Hussein, diz-se, estão os interesses das companhias de petróleo anglo-americanas, a ordem financeira internacional e a estratégia de dominação geopolítica do governo republicano dos EUA; por trás da carnificina urbana, a concentração de renda da oligarquia brasileira, o dinheiro dos chefões da droga e a corrupção de altos escalões da administração pública.
A interrogação, porém, vai além disso. Sabemos que o poder não tem escrúpulos e que a disposição para matar está potencialmente inscrita em todos nós. A questão, contudo, não são as mortes violentas, mas os motivos pelos quais se mata.
O crime contra a vida, até recentemente, buscava se apoiar em razões compatíveis com nossos credos morais básicos. As guerras entre Estados ou grupos étnico-religiosos, para se legitimarem moralmente, invocavam a defesa de valores elevados -"Deus", "raça superior", "libertação do proletariado", "civilização", "progresso" etc. Do mesmo modo, os crimes comuns procuravam
se apresentar como justo revide a ofensas físico-morais.
A cultura do respeito à vida exigia que a impiedade se ocultasse na sombra da virtude. A infração assassina se estruturava de tal maneira que o nexo entre a causa e o crime se tornava inteligível à luz dos princípios éticos dominantes.
Outra coisa são os crimes sem razão ou por razões morais irrelevantes.
Nesses casos, o abismo entre a causa e o crime é tão profundo que não temos como entender, do ponto de vista moral ou emocional, o que aconteceu.
Nos dias atuais, é justamente isso que horroriza. As razões pelas quais se mata são tão irrisórias ou mentirosas que, frequentemente, somos levados a pensar que só há duas saídas: ou damos as costas ao que vemos ou desejamos que a lei do talião venha massacrar a baixeza, o cinismo e a brutalidade dos matadores.
Em outras palavras, estamos prestes a jogar para o alto séculos de cultura humanitária, em favor de um mundo cuja escala moral é a sarjeta.
Na guerra contra o Iraque, isso fica visível. A ferocidade dos agressores se torna ainda mais absurda, dada a estupidez da justificação.
Como líderes políticos das duas nações que, ao lado da França, criaram a moderna democracia ocidental foram capazes de alegar razões morais para propósitos belicosos ilegais, sabendo que se dirigiam a uma opinião pública alfabetizada e com memória?
Na delinquência urbana, de forma análoga, para matar não são necessários maiores pretextos. Se a arma está engatilhada e o ímpeto diz sim, ai de quem está à mão! Mata-se a avó por dinheiro para comprar cocaína; uma adolescente
de 14 anos morre, porque alguém quis roubar qualquer coisa no metrô e enfrentou o tiroteio da polícia; mata-se um professor universitário porque não deveria estar ali, na hora do assalto; matam-se policiais porque são "policiais", e bandidos porque são "bandidos".